A noite não pede licença.
Ela chega.
E com ela, tudo o que eu consegui esconder durante o dia
volta a respirar.
O pensamento fica mais alto.
A lembrança fica mais nítida.
O cansaço encontra o próprio nome.
E o coração, quando ninguém vê,
confessa.
Há noites em que o corpo não está doente.
Está cansado.
E há um cansaço que não vem do trabalho
nem do tempo.
É um cansaço antigo.
De sustentar o que pesa.
De parecer inteiro quando já não se está.
De seguir adiante sem saber onde pousar.
Eu aprendi que existe uma dor
que nasce do barulho.
O barulho da mente.
O barulho do controle.
O barulho de tentar ser forte o tempo todo.
E foi nesse barulho
que eu me perdi de mim.
Eu ouço aquilo que eu não queria ouvir:
que eu me abandonei em alguns lugares.
Que eu fui embora de mim mesmo
em nome de dar conta.
Em nome de ser forte.
Em nome de não preocupar ninguém.
Em nome de calar o que ardia por dentro,
mesmo quando o silêncio vinha turvo
e nunca durava.
Em nome de atravessar as noites
como eu sabia naquele tempo.
E de não estar inteiro
quando eu era necessário.
De oferecer presença rasa,
olhar cansado,
escuta incompleta.
Eu falhei no gesto simples de ficar.
Havia amor diante de mim
e eu não soube pousar.
Havia uma vida pequena aprendendo o mundo
e eu, ocupado demais
em não sentir o meu.
E o Silêncio…
o Silêncio viu tudo.
Não me acusou.
Não me absolveu.
Apenas permaneceu.
Permaneceu quando eu me ausentei.
Permaneceu quando eu confundi sobreviver
com desaparecer aos poucos.
Até que, mais tarde —
bem mais tarde —
o Silêncio deixou claro
que havia um custo em fugir,
e que existia um jeito mais limpo,
mais honesto,
mais presente
de ficar.
Hoje, eu peço saúde.
Saúde para soltar os ombros.
Saúde para destravar o peito.
Saúde para não transformar cada sensação em ameaça.
Saúde para dormir sem medo de fechar os olhos.
Saúde para acordar sem carregar a noite nas costas.
Saúde para permanecer lúcido
quando o peso não é só meu.
Para não fugir quando a fragilidade pede cuidado.
Para sustentar presença
onde antes eu me ausentei.
Saúde para oferecer amparo
sem tentar consertar,
sem prometer salvação,
apenas ficando.
Porque estar disponível
também é uma forma de amor
aprendida com o tempo.
E eu peço alegria —
não a que faz barulho,
mas a que se instala devagar.
A alegria de caminhar com menos pressa.
De ouvir sem defesa.
De estar sem precisar provar nada.
E eu peço fé.
Não a fé que explica,
mas a fé que sustenta.
A fé que permite recomeçar
sem apagar o que foi.
O Silêncio segue comigo.
Não como ausência,
mas como cuidado.
Ele me lembra
que nem tudo precisa ser resolvido agora,
e que alguns gestos
valem mais do que qualquer palavra.
Se houver um caminho possível,
que ele seja feito de constância.
Se houver um reencontro,
que ele aconteça sem cobrança.
Eu não peço para voltar atrás.
Peço apenas para seguir
com mais verdade.
E se, em algum momento,
for possível caminhar lado a lado,
que seja assim:
sem ruído,
sem pressa,
com respeito pelo que cada um se tornou.
Às vezes,
reparar
é escolher ficar atento.
É não apressar o passo.
Não fugir quando o dia pesa.
Não se ausentar de novo.
É permanecer
com respeito,
com cuidado,
e com o tempo que for necessário.

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